
mentiria se dissesse que me orgulho do meu passado, mas sinto o peito enfunar-se, quando me recordo que passei uma parte significativa da minha adolescência a comprar cassetes de áudio. não demorei muito a ter setenta e duas virgens no meu quarto. ora, tendo em conta que o fiz, sem ter sido necessário cometer a imbecilidade de me converter ao islamismo e sem ter precisado de me tornar um mártir aclamado com salvas de metralhadora na faixa de gaza, acho que se pode dizer que estamos a falar de um tipo que não é parvo de todo.
ingrato como sou, já me tinha esquecido por completo desta peça de tecnologia, à qual devo tanto da minha geografia musical. foi preciso vir a público esta história da professora de espinho, para que me voltasse a debruçar sobre muitas das questões existenciais, em torno das cassetes de áudio, que deixara pendentes no final da minha adolescência. mas como sou um cavalheiro, não irei aborrecer o amável leitor com devaneios de semelhante estirpe. vou directo ao assunto:
o jornalismo sério que se pratica em portugal, tratou depressa de colocar ênfase nas questões sexuais, usando o negrito para o sexo com que titularam as notícias (não foi este o mundo que o movimento abolicionista sonhou). recordo-me bem que a primeira vez que esta história aparece na televisão, é apresentada como o caso de uma professora que fala de sexo com os seus alunos durante as aulas. assim que pudemos assistir à reportagem, depressa se percebeu que (para variar) nos tinham enganado. e, por incrível que pareça, continuaram a tentar enganar-nos ao longo dos dias que se seguiram. no parlamento, a paródia foi levada ao extremo, quando um senhor do cds (o único ser humano que alia a falta de cabelo à capacidade inata para fazer passar a bancada do bloco de esquerda por uma comissão de sábios) tentou uma pirueta retórica, usando este caso como a prova de que a educação sexual na escola é um perigo e um erro. este caso, deixemo-nos de merdas, apenas prova que aquela senhora vai apreciar muito o apoio da família durante o período de visitas no júlio de matos. mas prova mais. prova que ainda não aprendemos a escutar. a escutar o que realmente está gravado naquela cassete.
sim, toda a gente ouve uma professora mal-educada e trauliteira, cuspindo ameaças sobre as cabeças de crianças de 12 anos. uma senhora que mostra uma sintonia perfeita com o que sabemos ser a concepção de educação que alguns dos membros mais destacados deste governo amiúde vão defendendo. gente que confunde o diploma de estudos com a vida real. também a docente de espinho se faz valer do seu 'mstrado'[sic], dos dezasseis anos a estudar, da forma como os outros devem dirigir a palavra à senhora doutora que, em dezasseis anos de estudo, não teve tempo para aprender a conjugar o verbo meter, no pretérito perfeito do indicativo, na segunda pessoa do singular. 'tu nem sabes no que te metestes'. sim, a fita magnética reproduz fielmente a sintaxe que a atraiçoa. e foi também a isto que tanta gente deu ouvidos. mas, e aquele ruído de fundo? aquele mantra silencioso que se faz escutar em dolby surround, os cochichos no corredor, aquele não é nada comigo, não é nada comigo, não é nada comigo? dito por outras palavras: aquele silêncio. ou, se preferirem uma forma pomposa: aquela pusilanimidade. é a segunda vez na vida que me vejo na contingência de ter de citar o saudoso tino de rans: não são os políticos que governam este país; o que governa este país é a cobardia.
e, portanto, podem apagar a gravação que a aluna fez na aula. a professora pode até vir a receber uma indemnização por ter sido alvo de uma cilada. a cassete pode não ser considerada válida pelos tribunais. há, contudo, nesta história, uma marca indelével. é que a tecnologia permite que se apague tudo o que existir numa cassete, mas não existe nada que possa apagar o que está ali para quem o quiser escutar: sssshiiiiiiiiiiiiiiiuuuuuuuuu.